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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

ÁLVARO DE CAMPOS - HETERÔNIMO DE FERNANDO PESSOA - POEMA TABACARIA


ÁLVARO DE CAMPOS - HETERÔNIMO DE FERNANDO PESSOA - POEMA TABACARIA

É com grande satisfação que apresento alguns fragmentos desse que é considerado um dos poemas mais importantes da nossa língua:


Tabacaria (fragmentos)
 
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,


Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.


Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!


Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente


Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.



ÁLVARO DE CAMPOS - HETERÔNIMO DE FERNANDO PESSOA - POEMA TABACARIA

Forte abraço!

E para quem quiser conhecer mais a obra desse grandioso heterônimo...
O livro Poesias de Álvaro de Campos pode ser encontrado nas Americanas, no link abaixo:
http://el2.me/LDku